quarta-feira, 31 de agosto de 2011

PALAVRAS

«Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto
.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor
.

(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.»


ALEXANDRE O'NEILL


Queria que as minhas palavras fossem ao encontro das tuas quando a distância nos aparta e te enchessem da minha presença pela noite fora, suprimindo o desassossego que nos corrói e essa solidão voluntária que te consome. Gostava de escrever palavras que te beijassem e que num simples texto te contassem o que sinto, sem que to tivesse de dizer e tu de o ouvir; palavras que escrevessem o nó que tenho na garganta, para que percebesses, por fim, o que o receio nunca me deixou dizer-te.

Ser no fundo, nada mais que poeta de emoções: poder brincar com sentimentos como quem faz e desfaz rimas num pedaço de papel riscado, nele aliviar a alma quando, como agora, esta transborda e me pesa mais que o peito suporta.

domingo, 28 de agosto de 2011

?!

porquê?                      porquê?         porquê?         porquê?            porquê?    porquê?    porquê?    porquê?          porquê?         porquê?                porquê?
                      porquê?                    porquê?           porquê?   porquê?            porquê?                      porquê?      porquê?     porquê?            porquê?
porquê?porquê?porquê?           porquê? porquê?porquê?      porquê?porquê?porquê?     porquê?porquê?porquê?    porquê? porquê? porquê?
porquê?   porquê?   porquê?   porquê?   porquê?   porquê?   porquê?   porquê?   porquê?   porquê?   porquê?    porquê?   porquê?   porquê?    porquê?
porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê? porquê?

... PORQUÊ?!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

(DES)DRAMATIZAR

«Porque a vida, individual ou colectiva, pessoal ou histórica, é a única entidade do universo cuja substância é o perigo. Compõe-se de peripécias. É, rigorosamente falando, drama.
Nós não nos demos a vida, mas esta nos é dada; encontramo-nos nela sem saber como nem por quê; mas do facto de que ela nos é dada resulta que temos de fazê-la nós mesmos, cada um a sua.
A cada minuto precisamos de decidir o que vamos fazer no minuto seguinte, e isto quer dizer que a vida do homem constitui para ele um problema permanente

JOSÉ ORTEGA Y GASSET


Problema permanente... um zumbido constante nos ouvidos, um conjunto de martelinhos que pisam e repisam os neurónios como se fossem cordas de um piano. Porém, o que de nós sai está longe de ser uma harmoniosa melodia, mas sim uma desafinada desordem de sons desconexos.

Estamos todos no mesmo barco. Mais cedo ou mais tarde, padecemos das mesmas dores, dos mesmos problemas, do mesmo descontentamento imutável. Somos feitos da mesma matéria, pais da mesma ambição, perseguidores inveterados da metáfora subjectiva do sucesso. Falhamos todos no mesmo.

Deixamo-nos ludibriar pela utopia, na inocência de que o mundo não passa de uma bola de algodão doce que comemos a bel-prazer, até que a nossa existência passa a ser meramente rotineira, uma desilusória hipérbole de frustrações. Os ideais doces de outrora transformam-se numa realidade enjoativa: o fracasso tolda-nos a mente, as lágrimas a vista.

O dia-a-dia apresenta-se a um ritmo alucinante, numa espiral vertiginosa, em que os problemas e decepções nos surgem como colcheias e semifusas numa partitura de um prestissimo. Andamos desgastados, irritáveis, confusos e cansados. Não vivemos, existimos.

É o preço que pagamos pela frenética correria atrás do inalcançável.


«É difícil ser feliz; requer espírito, energia, atenção, renúncia e uma espécie de cortesia que é bem próxima do amor. Às vezes é uma graça ser feliz. Mas pode ser, sem a graça, um dever. Um homem digno desse nome agarra-se à felicidade, como se amarra ao mastro em mau tempo, para se conservar a si mesmo e aos que ama. Ser feliz é um dever. É uma generosidade.»

LOUIS PAUWELS


É difícil, mas ninguém disse que ia ser fácil.
É, acima de tudo, a maior luta do ser humano, e como tal, a mais valiosa conquista.
Custa mudar as coisas, mas há sempre solução. Está na hora de largar o sofá, a depressão e os planos suicidas.
E ter a coragem de lutar pelo que nos dá o mais puro desejo de viver.

Sê feliz comigo.

sábado, 20 de agosto de 2011

DESENCONTROS

«Sick of you
And I'm sick of me
I'm sick of wars
And I'm sick of peace
I'm sick of sound
'Til I'm sick of silence
Oh, sick of the darkness
'Til I'm sick of the light

When I'm so sick
That this sickness has me dying
I hope you'll be by me then
I hope you'll be by me then
Oh, when I'm so sick
That this sickness have me dying
I hope you'll be by me then»

DAVE MATTHEWS BAND - #27



«O teu mal é igual ao meu: somos demasiado densos para a vida, desencontramo-la amiúde e sentimo-nos a mais.»


Não o diria melhor.
Esse, realmente, (sempre foi) é o problema.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

PANCADAS DE MOLIÈRE

 «Ao som da terceira, aí, sim, se apagam as luzes, abrem-se as cortinas e o silêncio, assim sugerido, dá espaço à viagem, na qual tudo é possível: o público mostra-se visivelmente preparado para embarcar, a história é contada, a mensagem é lançada e os artistas, consequentemente, já estão concentrados para encarnar os personagens

E aqui estou eu. Escondida por detrás de uma cortina poeirenta, separada da multidão ruidosa que aguarda impaciente por se avistar movimento no palco e que a peça comece.
Todas as estreias são assim. Mesmo que a peça não seja um prodígio dramático mas sim uma reprodução trágico-cómica da vida insossa desta "Ana sem lógica".

Aviso desde já que o guião será uma colecção disparatada de desabafos, de emoções que por impulso dão origem a palavras. Para muitos, não farão sentido. Para poucos (para ti, quem sabe?) não será preciso acrescentar mais nada, o que lês fala por nós.
 
Depois de muito hesitar, chega a hora. Estou no palco. As cortinas abrem, a luz encandeia-me, o silêncio ensurdece.

O espectáculo vai começar.